Do jeitinho de antigamente
Julho 15, 2008
É muito fácil, no meio de uma campanha eleitoral, um candidato dizer que o sistema de saúde do município vai mal, sem apresentar um projeto concreto para melhorá-lo. Que precisamos de mais médicos, sem apresentar ferramentas viáveis – e legais – para contratá-los e pagar seus salários dentro do orçamento disponível e de acordo com instrumentos de controle de gastos públicos, como a Lei de Responsabilidade Fiscal. Em vez disso, o que estamos presenciando é um emaranhado de discursos vazios (‘tudo precisa ser mudado’ – Major Avelar), promessas absurdas (‘todos os estudantes e idosos irão andar de ônibus de graça’ – Ismar Tavares) e sandices impraticáveis (‘nós vamos é rasgar essas leis que estão aí’ – Lourdes Melo), nos mesmíssimos moldes das antigas campanhas dos coronéis de antigamente. Onde estão as propostas? E, principalmente, onde está o respeito com a nossa inteligência?
O fato de você conseguir detectar um problema não significa que saiba como resolvê-lo. Quando o meu carro começa a pifar, eu sei que ele precisa de reparos. Mas como não entendo nada de funcionamento de motores, não me meto a consertá-lo – em vez disso, levo-o à um mecânico. O que estamos a ver na TV são candidatos que simplesmente não fazem a menor idéia de como resolver os problemas que ainda afligem nossa cidade. Pior: não apresentam sequer propostas plausíveis. Ficam só no discurso, e um discurso tolo. São absolutamente despreparados, mas se acham muito espertos. Tão espertos a ponto de acreditar que nós é que somos tolos e não estamos percebendo tudo isso.
O absurdo no discurso de alguns candidatos chega a níveis estratosféricos. O candidato Alexis, da coligação PSOL/PSTU, nas suas considerações finais durante o debate realizado pela TV Meio Norte hoje, mandou essa: “Eu não quero agradecer o (sic) Sistema Meio Norte não. Eu estou é sendo explorado, porque isso aqui dá Ibope… o Meio Norte devia era mandar dinheiro pra minha campanha”.
Sem mais comentários.
Letras
Julho 10, 2008
Hoje houve o primeiro debate entre os candidatos a prefeito de Teresina. Destaque para o Major Avelar, que iniciou sua primeira pergunta citando um poema da… “internet”. Após a leitura, nem uma menção ao autor da obra. Nota-se que o conhecimento literário do nobre candidato tem a profundidade de um pires.
Bola fora
Julho 10, 2008
E a bola da vez é o menino João Roberto que a polícia matou. Eu só queria mesmo que alguém me explicasse o motivo de a Ana Maria Braga pegar um pai e uma mãe que estão se acabando por dentro, sofrendo uma dor que não tem fim, e colocar na frente das câmeras dela, chorando, passando mal de tanto chorar…
O que tem que ser mostrado não é família sofrendo, porque isso não resolve. Vai servir pra quê? O que tem que ser mostrado é culpados sendo punidos, é polícia recebendo treinamento certo, é segurança nas cidades para os cidadãos.
Mãe e pai chorando só vão fazer outros pais e mães chorarem.
Deprimente…
Sobre mutantes e cavalos-de-pau
Julho 9, 2008
Não se fazem mais novelas como antigamente. A Record agora aprendeu a produzir extravagâncias voltadas ao público jovem. Não bastassem os tais mutantes – uma imitação descarada (e horrivelmente tosca) dos X-Men americanos – a TV do bispo achou por bem nos enfiar rachas automobilísticos nos moldes de Velozes & Furiosos goela abaixo. Desnecessário dizer que, seguindo a tradição da emissora, tudo é muito mambembe. Além da canastrice do ator (?) Dado Dolabella, o folhetim nos presenteia com repetições múltiplas das cenas mais ‘vibrantes’ da trama: uma fumaça aqui, um parachoque caindo ali. Três, quatro vezes, de ângulos diferentes. Emocionante.
O grande número de marcas voltados aos adolescentes anunciando nos breaks comerciais mostra que essa fatia do mercado está disposta a continuar na frente da TV. Mas custa contratar um roteirista decente? Custa desistir de viajar em efeitos especiais que, perto dos originais hollywoodianos, são ridículos? Ou a Record acredita que ninguém está percebendo a diferença?
Na dúvida, é mais seguro fazer como a Globo em Malhação: catar uns rostinhos bonitos e imitar Barrados no Baile. Bom, mesmo, não é. Mas pelo menos, não soa tão patético.
Showzinho
Julho 9, 2008
A recente Operação Satiagraha teve o mérito de colocar atrás das grades uma quadrilha de bandidos de colarinho branco ligados ao esquema do mensalão (os verdadeiros líderes ainda estão perambulando por aí, mas isso é outra história). Mas que a Polícia Federal, de novo, quis usar do acontecimento pra se auto-promover perante a imprensa, disso ninguém duvida. No que o presidente do STF chamou de ‘espetacularização’, os nobres agentes se travestiram de rambos, deram cambalhotas por cima de muros e gritaram desvairadamente, tudo isso diante de uma estrategicamente convocada platéia de repórteres, cinegrafistas e fotógrafos. Parecia que estávamos assistindo um filme de ação B. Os acusados merecem estar no xadrez, mas exibicionismos desse tipo, definitivamente, ninguém merece.
Começou
Julho 8, 2008
Essa semana deu pra notar que começou, de verdade, a campanha eleitoral. Passeatas, bandeiraços e outras manifestações da vontade popular pululam por ruas, praças e quintais. De agora em diante, nossa inteligência será sistematicamente insultada pelos candidatos em horário nobre, com aval da constituição. Jingles irritantes cortarão o ar impiedosamente, e fotografias medonhas nos aguardarão em cada esquina.
E por falar em fotografias, já perceberam que algumas delas nos acompanham há anos? Não me refiro aos personagens – estes não largam o osso mesmo, isso não é novidade. Falo das fotografias de fato usadas nos cartazes e santinhos das campanhas. Alguns destes senhores já estão carecas e corcundas, mas suas fotos portando vastas cabeleiras e bigodinhos à Clark Gable teimam em não ser descartados. Como espectros, tais imagens aparentemente produzidas nos anos sessenta, reaparecem para nos assombrar de quatro em quatro anos. Deve ser por causa da moda retrô, vai saber.
E da série candidatos nonsense, eis que ressurge o capitão Avelar, agora major. Muito bem penteado, porém desmembrado de sua obscena corda-de-fumo (expediente de extremo mau gosto usado pelo nobre militar na tentativa de convencimento do eleitorado no último pleito), o candidato à prefeitura de Teresina pelo PSL bem que tentou, mas não disse absolutamente coisa com coisa na entrevista de trinta minutos no Jornal do Piauí de hoje. Perguntas simples, como uma sobre o que precisava ser mudado na atual administração municipal da capital, eram respondidas com um categórico e desinformado “Tudo”. Ao encarar o olhar perplexo dos entrevistadores, ele arrematava brilhantemente: “Deixa eu explicar: tudo precisa ser mudado”. Ah, entendi. Alguém aí sabe de programa de governo mais completo que esse?!? A patente subiu, mas a falta de noção continua a mesma. Aliás, na minha opinião, ele deveria ter pego carona na recente onda de filmes de super-heróis e deixado o capitão antes do nome. Talvez os adolescentes gostassem.